Quem concorda com os vossos princípios mas não conseguiria ser vegano, o que pode fazer?

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Esta é uma frase que qualquer vegano já deve ter ouvido vezes sem conta: “eu até acho que os veganos têm razão, mas não conseguiria ser vegano.”

Temos de parar para pensar bem no que ela significa e na razão pela qual este tipo de raciocínio impede tantas pessoas de viverem de acordo com aqueles que, na prática, já são os seus ideais.

O que significa dizer que “não conseguiria ser vegano”? Que tenho um problema de saúde que literalmente me obriga a consumir produtos de origem animal? Que não consigo resistir ao sabor de determinados produtos? Que não teria coragem de fazer essa mudança e passar a parecer um esquisito aos olhos dos meus familiares, amigos e colegas de trabalho?

A primeira opção é bastante improvável; como as mais prestigiadas organizações de nutrição e saúde do mundo já afirmaram, a dieta 100% vegetal é adequada para todas as fases da vida, pelo menos para a vasta maioria da população.

A segunda opção deve ser alvo de uma significativa auto-reflexão. Será o paladar, o mero prazer de comer alguma coisa, uma justificação aceitável para explorar e matar um ser senciente? Quem consome produtos de origem animal por esta razão não está em posição de criticar outras práticas de abuso dos animais, como a tauromaquia ou as lutas de cães, que também utilizam o prazer humano como única justificação.

A terceira opção é, provavelmente, a mais comum. Eu concordo com o veganismo, reconheço que é absurdo maltratarmos e matarmos tantos animais sem necessidade, mas sentir-me ia muito estranho se tivesse agora de dizer a todos os meus familiares e amigos que de repente deixei de comer carne e outros produtos, quando ainda ontem comi um hambúrguer. Esse é um sentimento perfeitamente compreensível, e muitos de nós veganos passámos por isso. E sim, toda a gente vai achar estranho e vai fazer perguntas ou até comentários potencialmente desagradáveis.

Mas o mais difícil são os primeiros dias. À medida que o tempo passa, as pessoas que nos rodeiam habituam-se, e nós próprios acabamos por nem nos lembrar por que razão a mudança parecia tão intimidante antes de a fazermos. Simplesmente passámos a estar atentos ao que consumimos e evitar o que resulta de exploração animal; mais nada precisa de mudar. Após o breve desconforto da transição, as nossas relações voltarão ao normal e passaremos a viver para sempre de acordo com a nossa consciência, o que é uma sensação fantástica. Na verdade, na nossa experiência, a maior parte das pessoas que diz que gostaria de ser vegana mas não conseguiria acaba por tornar-se vegana em alguma altura, e arrepende-se de não o ter feito mais cedo.

E se por alguma razão não te agrada a ideia de te intitulares “vegano”, não precisas de o fazer; os rótulos facilitam a nossa vida em muitos aspetos, mas o que conta é a prática! Por isso, se és contra o sofrimento desnecessário dos animais, talvez esteja na hora de dares o passo que sabes que queres dar e começares a viver uma vida que contribui o menos possível para esse sofrimento. Os animais contam contigo!

Foto do cordeiro Zacarias a receber festinhas na Quinta das Águias

O cordeiro Zacarias a receber festinhas. Foto cedida pela Quinta das Águias.