Porque não podemos matar para comer, se outros animais também o fazem?

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Este é um dos argumentos mais comuns contra o veganismo: os animais também se matam e comem uns aos outros. Porque não podem os humanos fazê-lo?

A forma como o argumento é habitualmente formulado não deixa claro exatamente por que razão o facto dos animais matarem outros animais justifica que os seres humanos também o possam fazer, mas após alguma discussão é possível perceber que este argumento se desdobra em dois:

  1. Os animais também se matam e comem uns aos outros, logo esse comportamento é natural e eticamente aceitável, logo os seres humanos também o podem fazer.

  2. Os animais também se matam e comem uns aos outros, logo haverá sempre imenso sofrimento e morte no mundo, logo não vale a pena estarmos a abster-nos de causar mais.

Ao ler o primeiro argumento atentamente, é difícil não nos apercebermos da enorme falácia nele contida: os animais fazem algo, logo isso é natural e eticamente aceitável.

Natural talvez seja, dependendo da definição de “natural” que quisermos usar. Se colocarmos um leão no mesmo espaço que uma gazela, o leão vai matar a gazela e comê-la; se colocarmos um ser humano no mesmo espaço que uma vaca, o ser humano não tem nem o instinto nem a capacidade física para matar a vaca sem o uso de ferramentas. E mesmo que o fizesse, dificilmente seria capaz de comer a sua carne crua e sem temperos. Mas sim, se considerarmos “natural” aquilo que os outros animais fazem ou que o ser humano primitivo fazia, podemos dizer que comer carne é natural.

Mas eticamente aceitável? Desde quando usamos o comportamento dos animais como modelo de ética? Ao contrário da maioria dos outros animais, temos a capacidade de distinguir o bem do mal e de optar se queremos fazer um ou outro. Baseamos as nossas ações em considerações éticas, e nem tudo o que é natural é ético - é precisamente nesse equívoco que reside a falácia do argumento. Muitos animais também matam outros da sua própria espécie; matam e comem as próprias crias; roubam as crias uns dos outros. Tudo isso são comportamentos naturais, mas que nós como seres humanos nunca imitaríamos. Pelo contrário, criámos leis para impedi-los e punimos os transgressores, porque não os consideramos corretos. Não há nada menos natural do que os milhões de leis e regras que fomos criando para orientar a nossa vida em sociedade, para que ninguém pudesse matar, ferir, roubar, prejudicar simplesmente porque quer e consegue.

Ninguém, com a possível exceção de alguns psicopatas e sociopatas, gostaria de viver num mundo onde o ser humano fizesse aquilo que é “natural”, em vez de tomar decisões com base em considerações éticas. Por isso, quando ponderamos se devemos ou não fazer algo, a questão nunca pode ser “outros animais também o fazem?”, mas sim “é eticamente aceitável?”. E causar sofrimento e morte desnecessariamente não é eticamente aceitável. Isso para não mencionar que os outros animais simplesmente matam - e normalmente de forma rápida e eficaz; nós reproduzimos à força, deformamos através de seleção artificial, mutilamos, aprisionamos, maltratamos - e só depois matamos. Mesmo que estivéssemos a usar os animais selvagens como modelo, teríamos de fazer muito melhor.

O segundo argumento faz ainda menos sentido, pois baseia-se na premissa de que não vale a pena fazer nada se não formos capazes de fazer tudo. Para quê ser bom, se haverá sempre pessoas a fazer o mal? Para quê fazer campanhas contra a violência, se haverá sempre pessoas a morrerem de forma horrível em acidentes? Nunca seremos capazes de eliminar todo o sofrimento e morte violenta e precoce do mundo, por isso não vale a pena sequer tentar.

Obviamente, vale a pena. É certo que nunca conseguiremos eliminar todo o sofrimento, mas tudo o que façamos para prevenir ou aliviar o sofrimento de alguém faz diferença.

Atualmente, cada ser humano consome dezenas de animais por ano. Ao deixares de o fazer, estarás a diminuir a procura por esses produtos, e no ano seguinte o número de animais a sofrer em gaiolas ou a sangrar em matadouros será inferior em algumas dezenas do que seria se tu ainda os comesses. Pode parecer pouco, mas para cada um dos animais que foi poupado a essa trágica existência, é tudo.

E não subestimemos o impacto da nossa espécie. Toda a destruição que fomos causando nas últimas décadas levou a que, dos mamíferos hoje existentes na Terra, 60% sejam animais da indústria pecuária, 36% sejam seres humanos e apenas 4% animais selvagens. Entre as aves, 70% são de pecuária e 30% selvagens (fonte: The Guardian). Isso significa que o número de animais mortos por outros animais é infinitamente inferior aos mais de 80 mil milhões de animais terrestres (dados da FAO) e biliões de animais aquáticos mortos anualmente por nós (até porque, dessa minoria de animais selvagens, nem todos são carnívoros). Ou seja, as nossas escolhas fazem diferença, e não é pouca. À medida que formos caminhando para uma humanidade vegana, vamos mesmo eliminar a vasta maioria do sofrimento e morte de animais no nosso planeta.

[Foto de um grupo de leões na Tanzânia]

Foto de Jeff Lemond no Unsplash.