Não se pode dizer “leite de soja”?

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Claro que pode :)

A rotulagem de produtos tem de obedecer à legislação, mas as pessoas não estão obrigadas a seguir esses critérios na sua vida quotidiana e podem referir-se a esses mesmos produtos como bem entenderem. E se optarem por dizer “leite de soja” a semântica estará do seu lado, já que o dicionário da Priberam lista o seguinte como um dos possíveis significados da palavra “leite”:

Líquido esbranquiçado ou semelhante ao leite (ex.: leite de soja).”

"leite", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa online, 2008-2021 (consultado em 18-04-2021)

E outra coisa não seria de esperar, uma vez que este sentido está consagrado pelo uso e é apenas um exemplo das muitas situações em que usamos substantivos que originalmente têm um sentido específico para designar algo que é semelhante ou que cumpre a mesma função. “Cerveja” é, por definição, uma bebida alcoólica, mas chamamos “cerveja sem álcool” a uma bebida semelhante mas não alcoólica. “Piano” é, por definição, um instrumento musical em que o som é produzido por martelos a baterem em cordas, mas chamamos “piano digital” a um instrumento semelhante mas em que o som é produzido de forma digital.

Teoricamente, deveríamos designá-los “bebida de malte sem álcool” e “instrumento de teclas digital”, mas não o fazemos e ninguém se importa com isso, possivelmente porque as empresas que fabricam cerveja sem álcool e pianos digitais sejam as mesmas que fabricam cerveja com álcool e pianos acústicos; ou talvez porque o lobby da cerveja e dos pianos não seja tão forte como o do leite, que conseguiu efetivamente que se legislasse no sentido de condicionar a designação das chamadas “bebidas vegetais”.

No Parlamento Europeu, esteve recentemente na mesa a possibilidade de aplicar proibições semelhantes aos termos “hambúrguer” e “salsicha”, a expressões como “alternativa ao iogurte” e até mesmo a adjetivos como “cremoso”, bem como ao formato dos pacotes e ao próprio aspeto dos produtos, tendo como pretexto evitar confundir o consumidor. Um pretexto que não se sustenta, pois se fosse essa a preocupação bastaria exigir a inclusão bem visível de um descritivo que clarificasse a origem vegetal do produto - que na verdade as embalagens de produtos vegetais já incluem, dado que o seu objetivo não é fazerem-se passar por produtos de origem animal, mas sim apresentarem-se como alternativas vegetais claramente assinaladas a esses produtos.

Na prática, proibições como esta não são mais do que uma tentativa de tornar certos produtos vegetais mais difíceis de definir, promover e encontrar. Felizmente, a tática não resultou com os leites vegetais, cuja quota de mercado tem vindo a subir em Portugal e no mundo, e esperamos que assim seja também com os hambúrgueres, as salsichas, os iogurtes cremosos, as manteigas, os queijos e todos os outros produtos de origem vegetal que nos ajudem a transitar para um sistema alimentar mais ético, sustentável e saudável - independentemente do que sejam obrigados a escrever nos rótulos.

[Foto de grãos de soja e do leite produzido a partir deles]